segunda-feira, 16 de junho de 2008

Textos e interpretação

Os textos a seguir são os textos passados em sala pela professora Andréa, junto com alguns comentários dela.
METAMORFOSE
de Cassiano Ricardo

Meu avô foi buscar prata
mas a prata virou índio.

Meu avô foi buscar ouro
mas o ouro virou terra.

Meu avô foi buscar terra
mas a terra virou fronteira.

Meu avô ainda intrigado

foi modelar a fronteira.

E o Brasil tomou forma de harpa.


-
O texto conta, gradativamente, o processo histórico brasileiro, desde os colonizadores de 1500.
-"prata" (verso 1) representa o que os colonizadores esperavam encontrar no Brasil.
-"índio" (verso 2) representa o que eles realmente encontraram (inicialmente) no Brasil.
-"ouro" (verso 3) sintetiza o período do ciclo da mineração, século XVIII.
-"terra" (v.5) e "fronteira"(v.6) demonstram as lutas por terra (Canudos, por exemplo) e a reforma agrária.
-"modelar a fronteira" (v.8) é referente à ação dos bandeirantes e das entradas no processo expansionista brasileiro.
-"forma de harpa" é a aparência física do território brasileiro atual.

  • Relação do título com o texto: gradativamente, no texto, o autor conta o processo histórico de formação do território brasileiro. Nesse processo, mudanças ocorreram e são essas mudanças que o autor cita no título "metamorfose" (uma coisa virar outra). Assim ele sugere, poeticamente, a forma atual do espaço geográfico brasileiro: uma harpa.


GARE DO INFINITO
de Oswald de Andrade

Papai estava doente na cama e vinha um carro e um homem e o carro ficava esperando no jardim.
Levaram-me para uma casa velha que fazia doces e nos mudamos para a sala do quintal onde tinha uma figueira na janela.
No desabar do jantar noturno a voz toda preta de mamãe ia me buscar para a reza do Anjo que carregou meu pai.


-
"gare"(título): plataforma, estação de embarque
-
"infinito" (título): se refere à vida após a morte (paraíso, inferno, além...)
- o homem e o carro no jardim representam, provavelmente, a morte que se aproxima, o carro funerário.
- o segundo parágrafo mostra a tentativa de espairecer, de diminuir a tristeza da morte do pai: a casa de doces, a figueira na janela.
- o terceiro parágrafo revela que, apesar de se mudarem e mudarem um pouco de vida e de rotina, ainda há o luto pela morte do pai ("a voz toda preta de mamãe" - preto=luto) e esperança de que ele tenha ido para um lugar melhor ( "ia me buscar para a reza do Anjo que carregou meu pai" - reza = pedido de salvação, de esperança).

  • "Comente o título": gare do infinito, provavelmente, simboliza a passagem tênue entre a vida e a morte (do pai, no caso). Nessa gare, nesse portão, estaria o Anjo (ou o próprio homem que esperava no jardim) para "carregar" o pai para a outra vida. Tal interpretação é confirmada pelo último parágrafo, em que os personagens rezam para o Anjo que carregou o pai do eu lírico.
(Como não há interpretação no caderno, essa não é da professora, e sim do Félix - sujeita a erros)



O BICHO
de Manuel Bandeira
Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

-o texto parte da poetização do cotidiano.
-há, a partir da terceira estrofe, uma gradação decrescente que leva como que a um "anticlímax"
-"meu Deus"(último verso), é uma apóstrofe: um vocativo carregado de subjetividade, envolvimento, emoção (é um apelo mais forte).

  • "Explique a visão do eu lírico diante da miséria": É uma visão subjetiva. No último verso, o eu lírico está emocionalmente envolvido e humanamente indignado com a desumanização (falta de dignidade, rebaixamento) imposta pela miséria.
  • "O que a apóstrofe 'meu Deus' expressa?": Ela expressa indignação e também contrapõe "Deus" (ente superior) e o homem, criando uma espécie de apelo/pedido, para que Deus mude a situação.

Erros no resumo ou textos que não estejam aqui, favor falar com o félix (mateus.felix@gmail.com)




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